terça-feira, 19 de maio de 2009

A produção de Vila Gondra


Logística

Do ponto vista logístico, nada foi mais complicado neste filme do que gerir os recursos humanos – conciliar disponibilidades de uma equipa que num dia normal de filmagens era composta por uma média de 7 pessoas, todas elas com vidas pessoais e muitas com trabalho e/ou escola, revelou-se muito difícil.

Como as noites disponíveis para filmar eram muito poucas, sempre que conseguíamos uma ficávamos mesmo até não dar para mais – 5 da manhã em várias ocasiões – com escola ou trabalho para comparecer no dia seguinte logo pela manhã. Foi penoso mas era a única forma de conseguirmos levar o projecto a bom porto.

As dificuldades de conciliação de horários estão bem patentes na cena em que os protagonistas descobrem a casa, que é suposto ser passada ao pôr do sol. Teve de ser filmada ao meio-dia porque foi simplesmente impossível marcar outra hora em que todos os intervenientes estivessem disponíveis. Foi necessário procurar zonas de sombra para filmar e a imagem teve de ser trabalhada e escurecida artificialmente.


Maiores desafios técnicos

- Iluminação: como filmar de noite levando a crer que não há iluminação artificial? Como dar uma luminosidade lúgubre e assustadora à casa? Como amplificar a luz tremeluzente de uma vela? Como imitar o luar? Como filmar ao meio-dia e tentar que pareça que o sol se está a pôr? Como dar um ambiente pesado e escuro a todo o filme?

- Continuidade: só tínhamos uma câmara de filmar o que obrigou à repetição exaustiva das cenas para que se conseguissem obter os diferentes planos. Este facto por si só já é um convite aos erros de continuidade, mas houve uma grande agravante: incentivámos os actores a improvisar nos diálogos para obter performances mais realistas. Funcionou bem, mas a consequência negativa é que as performances conseguiam ser radicalmente diferentes de tomada para tomada o que representou problemas enormes para a montagem. Muitas vezes foi necessário abdicar dos melhores planos em prol dos planos que nos permitiam dar continuidade.

- Cenários: o bosque onde o filme foi rodado é pequeno e cravejado de construções humanas. Encontrar planos que não mostrassem nenhuma casa ou poste de electricidade foi difícil. Para além disso, o som do trânsito numa estrada nas imediações insinuava-se em praticamente todas as tomadas. Foi necessário disfarçá-lo recorrendo a efeitos sonoros, tais como chilreios de pássaros e trovões.

- Realização e banda sonora: como criar uma atmosfera densa e assustadora e construir suspense? Como manter um ambiente tenso ao longo de 40 minutos de filme? A melhor forma que arranjámos para manter a tensão foi trabalhá-la por ciclos: fazê-la crescer até um ápice e depois aliviá-la e construir o filme de tal maneira que estes ápices fossem cada vez mais intensos.

Custos de produção

- 40€ em filtros de luz e lâmpadas para os projectores que nos foram gentilmente emprestados por amigos e conhecidos. Não houve um único destes projectores que não se tivesse fundido. Convenientemente, isto aconteceu sempre em momentos em que a sua utilização era fulcral.

- 15€ em sangue falso. Existia sangue falso à venda em alguma lojas, mas o preço era de 5€ por uns 10 ml. Como ainda precisávamos de algum sangue procurei receitas na Internet – todas elas levavam o almejado xarope de milho que não se encontra à venda em lado nenhum. Assim, gastei 10€ em “investigação sangrenta”: comprei uma vasta gama de produtos e fiz experiências metódicas para tentar obter um bom simulacro. Obtive uma receita para sangue comestível (mel, placas de gelatina, água e corante vermelho) e outra não comestível que resulta num sangue mais escuro e espesso (simplesmente detergente verde para a loiça com corante vermelho). Estou a considerar patentear este último porque para além de ser barato e credível é facilmente lavável com água. Gastei mais 5€ na produção massiva de sangue, depois de já ter obtido as receitas.

- 10€ num suporte para uma tela branca, usada para fazer iluminação indirecta.


Estas foram as únicas despesas mensuráveis do projecto. Há um gasto imensurável em gasolina por parte de quase todos os intervenientes, alguns dos quais tiveram de fazer sistematicamente deslocamentos significativos para chegar aos locais de filmagem. Há obviamente os custos em alimentação que foram sustentados por cada um.

Em conta há que ter todo o material informático e de vídeo que o Patrício Faísca (co-realizador) foi adquirindo ao longo dos anos, sem os quais o filme nunca se poderia ter concretizado. E o meu piano electrónico, sem o qual não se poderia ter gravado a banda sonora.



De resto temos de agradecer imenso a todos aqueles que nos providenciaram o que precisávamos: a Francisco Ricardo que nos disponibilizou a casa; a Pedro Fernandes, um dos actores, que emprestou o computador onde o filme foi montado; e a todos os que nos cederam a sua disponibilidade das mais variadas maneiras.

Curiosidade

Uma pequena ironia acerca de todo este projecto: nenhum dos realizadores é apreciador de filmes de terror. Eu, em particular, em toda a minha vida só devo ter visto uns 2 ou 3 filmes do género e um deles foi exclusivamente para fazer algum trabalho de pesquisa para o “Vila Gondra”.

1 comentário:

Anónimo disse...

Muito legal, essa gurizada poderia faltar a aula pelo menos um dia!

o esquema do sangue falso q inventaste me interessou! é só misturar?